Opinião
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Contra a xenofobia – O Nordeste é referência intelectual e cultural

Por Professor Gabriel Rocha

A Bahia, estação primeira do Brasil – como diz o saudoso baiano Caetano Veloso – é a barriga que gesta grandes talentos à cultura nacional. Não só na Bahia, o Nordeste, que carrega o estigma de povo burro, é, na verdade, o alicerce cultural do Brasil, além de ter excelentes resultados educacionais no ENEM e em olimpíadas nacionais. Esses dados, contrapõem qualquer adágio requentado de que o povo nordestino é insignificante à cultura nacional: longe disto, as adversidades são superadas por esse povo tão amistoso que paira para além dos obstáculos e faz boa produção cultural desde outrora, vide Luíz Gonzaga, Flávio José, Alceu Valença, Ivete e tantos mais. A xenofobia nos últimos tempos tem tomado proporções significativas, e terminantemente abomináveis, contra o povo nordestino, dado o aparecimento de caricaturas fascistas no Brasil que expandem os ataques a esse povo, motivados pela assistência do Estado de horrores e iniquidades.

O escritor austríaco Stefan Zweig mudou-se ao Brasil em função da perseguição nazista na Europa. Zweig, ao chegar aqui, impressionado com o potencial da nova terra, escreveu seu livro Brasil: o país do futuro. Conquanto, oito décadas depois, vê-se que a profecia do austríaco foi meramente ilusória, fato que se confirma principalmente quando se nota os avanços maléficos de algumas temáticas que dividem o Brasil em extremos, e põem em dicotomia o pensamento brasileiro em ‘’nós e eles’’. Essa faceta afeta, dentre inúmeras outras temáticas, diretamente o povo nordestino no fenômeno chamado xenofobia, que se refere à aversão ao outro pelo local de origem e cultura que expressa. Ela está intimamente enraigada no pensamento brasileiro, e muitos entendem que os habitantes dessa região são uma sub raça ou, ainda, um povo miserável sob inúmeros aspectos, inclusive desinformado.

No Brasil contemporâneo, dividir o país em duas cores, em dois espectros ou duas pátrias tem agravado esse cenário, o que é uma lástima, independentemente do estado brasileiro em que se vive. Esse fator é o empecilho para que o elevador social ascenda aos nordestinos, principalmente quando buscam melhores condições durante as migrações sazonais. Cabe lembrar, no entanto, que ninguém deve ser culpado por nascer em determinada região, nem tampouco isso deve gerar um estigma. Esse tipo de violência nem sempre é fácil de ser reconhecido, inclusive se estiver travestido de uma brincadeira ou piada, mas deve-se levar em consideração que a cultura alheia é a manifestação de um povo em seus costumes e crenças, assim é nas mais híbridas manifestações culturais, em cuja mistura estão outras formas de manifestação cultural, como no Forró, na finada Bossa Nova, no Piseiro e afins.

Sobre os índices, aponta-se a grandeza dessa região nas boas colocações nos concursos e olimpíadas, como foi o caso da Olimpíada Nacional em História do Brasil, na edição de 2021, em cujas conquistas resultaram a nada menos que 14 medalhas para a Bahia, 17 medalhas para o Pernambuco, 13 medalhas para o Ceará, em contraponto a 15 medalhas para São Paulo e 4 medalhas para o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Esses dados ratificam a tese de que o nordestino paira para além das dificuldades e produz milagres de fé com aquilo que se tem, nas zonas mais excêntricas do Brasil, onde não se vê Estado, nem se pode fazer ascender o mito da isonomia, assegurado pela constituição. Assim, urge a necessidade de combater esse mal, não apenas por ser um crime de etnocentrismo contra uma determinada localidade, mas por ser algo imoral ao resumir a riqueza de um povo a valores abjetos, como o analfabetismo e pobreza, principalmente quando ela parte do Estado, que, em tese, deve ser o gestor dos interesses coletivos através de seus representantes. O Brasil está se contaminando com uma onda fascista. Combatê-la não é mais uma necessidade, mas uma obrigação para assegurar a liberdade de expressão e de crença para fazer jus ao artigo 5º da Constituição Federal de 88.

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