Cidade Ademar, Memória, Meu Bairro
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Cidade Ademar era denominado “Bairro do Cupecê” no final do século 19

Bairro completa 76 anos neste domingo, dia 26. Mas a história começa ainda no século passado com as inúmeras olarias nos sítios da região.

Para conhecer um pouco da história do Bairro Cidade Ademar, fundado em 1946, é preciso regressar no tempo algumas décadas antes desta data. Para isto, o jornal O Bairro Cidade Ademar teve acesso a alguns documentos históricos que trazem ao público fatos inéditos e entender porque a região tornou-se periférica, marginalizada e com poucos recursos durante todos estes anos e, somente agora se torna aos poucos como um dos principais bairros em desenvolvimento de São Paulo.

A história começa ainda no final do século 19, pois a região era um conglomerado de sítios e fazendas pertencentes ao município de Santo Amaro, que administrou todas estas terras por quase 100 anos, de 1832 a 1935. Um dos principais sítios da região era denominado Sítio Cupecê, que abrangia quase toda a área da Cidade Ademar e ainda um pedaço da região próximo ao cemitério Campo Grande e tendo como divisa o “majestoso” Ribeirão Cupecê, atual Córrego do Cordeiro. Desta forma, o desenvolvimento destas terras aconteciam no sentido Largo 13 de Maio (centro de Santo Amaro) não em direção à São Paulo, por isto, até hoje constam algumas confusões na numerações de algumas ruas, pois nasceram tendo como referência o município de Santo Amaro.

Região viveu época de Ouro das Olarias – De acordo com a pesquisadora Adriane de Freitas Acosta Baldin, em seu trabalho “Tijolo à vista – as olarias na cidade de São Paulo na década de 1850/60” era uma das principais atividades das fazendas locais, ou seja, grande parte das fazendas ou sítios da região estava empenhada nas olarias (fabricação de telhas e tijolos), pois Até 1850, São Paulo era uma cidade tradicionalmente construída em barro socado. Por certo, houve reserva com relação à mudança do método construtivo, por parte da população, acostumada aos edifícios centenários de taipa. O município de Santo Amaro incentivava este progresso com a produção destes materiais, que era um grande avanço no final do século 19, e possivelmente ainda com mão de obra escrava.

Abandono e leilões – Entretanto, o setor começou entrar em decadência no inicio do século XX. Em uma breve pesquisa nos principais jornais da época é possível localizar dezenas de sítios ou fazendas de olarias sendo vendidas ou leiloadas, talvez pelo excesso de produção ou mesmo com a decadência do setor. Isto teve impacto direto nas fazendas locais que começaram a leiloar suas terras com preços bem abaixo do mercado e muitos ainda as abandonaram e percebem-se por meio dos Diários Oficiais, dezenas de leilões e pedidos de “Uso Capião” de terras e lotes da região que estavam abandonados, já que a prefeitura de Santo Amaro não tinha como fiscalizar uma área tão grande, pois a região ainda tinha matas fechadas.

Abaixo, edital de um leilão de um sítio na Vila Império, próximo a região da Caixa D’agua até onde hoje é o Córrego do Cordeiro, pelo valor de 40 Reis.

Um destes editais trata-se de um grande lote de terras na Vila Império, no Bairro do Cupecê em 1930 leiloado por 40 Reis.

Faço saber que o presente edital (…) que o porteiro dos auditórios Otávio Passos ou quem suas vezes fizer faz trazer a público o pregão de venda e arrematação, aqui mais der o maior lance ou oferecer acima da respectiva avaliação no dia 19 de fevereiro às 12 horas a porta do fórum cível a Rua do Thesouro, nesta capital o seguinte o seguinte imóvel penhorado a José Turini e sua mulher dona Maria Turini, no executivo hipotecário que eles movem (…), a saber, uma gleba de terra com mais de 80 mil metros quadrados situado nesta capital no município de santo Amaro no Bairro do Cupecê, fazendo parte da Vila império empreendendo-se os lotes 1 a 7, da planta referida. A área de terreno faz frente para Avenida Pedro Álvares Cabral, onde mede 670 metros de extensão dividindo de ambos os lados com quem dê direito e pelos fundos com Ribeirão Cupecê (Atual Córrego do Cordeiro) (…) em mal estado de conservação inclusive três fornos para olarias, tudo avaliado tudo avaliado 40 mil contos de reis (…).

Região foi leiloada por apenas 10 contos de Reis

Entretanto, o maior leilão da região aconteceu dois anos antes, quando o Sítio do Cupecê foi leiloado, por apenas 10 contos de Reis, como consta o edital no Diário Oficial de 3 de fevereiro de 1928.

Leilão do Sítio Cupecê em 1930, que ocupava quase toda a área da atual Cidade Ademar

“Diário oficial sexta-feira 3 de fevereiro de 1928 o Dr Alberto Garcia da luz juiz de direito da primeira vara desta comarca capital de São Paulo faz saber a quantos vierem o presente de tal praça que notícia tiver, que no dia 3 de fevereiro de 1928 às 14h na porta do fórum cível a Rua do Tesouro pelo porteiro do auditório ou por quem sua vez fizer será lavada em ata pública a fim de ser arrematada pouquinho mais der o maior lance e oferecer acima da respectiva avaliação de 10 contos de réis, a parte de terras que Venceslau Mariano Paes também conhecido por Wenceslau Antônio Mariano possui no sítio denominado Cupecê situado no município de Santo Amaro, freguesia do mesmo nome desta comarca o qual em sua integridade tem uma área de 60 alqueires de terras mais ou menos de campo de capoeira constituindo por cinco potes de terras dividindo pela seguinte forma: Começando em uma porteira vai até dar num vale que passa por trás da casa da morada sede do sítio, daí seguindo até chegar a um córrego seguindo por este até a cabeceira daí segue por uma barroca e dessa vai até o alto de um espigão indo dar no outro córrego no Ribeirão do Cupecê que divide em toda sua extensão com terras de José Borba sobrinho e Rosa Antônia de Borba pelo Ribeirão do Cupecê abaixo, até encontrar com as terras que foram de João Antônio Bento, atravessando a estrada confronte com uma valeta na mesma estrada, seguindo depois por uma picada, confrontando com terras que foram do referido João Antônio Bento até um córrego quebrando ao lado direito e segue dividindo com terras até encontrar terras do governo (possivelmente área onde hoje é o zoológico). Daí segue dividindo com estas terras pelo lado direito até a estrada de São Bernardo (Bairro de Vila Conceição de São Bernardo, pois ainda não existia o município de Diadema), encontrando o alto do espigão e vai encontrar o Ribeirão do Barreiro, através deste, sempre dividindo com terras do Governo até encontrar no vale que vai dar em um córrego e descendo por este vai dar em uma porteira e daí vai até encontrar o referido Ribeirão do barreiro dividindo nesta face com terras do sítio ressaca de propriedade de Afonso Fagundes e Gandhi e Levi e Antônio Cantarella da porteira do Ribeirão do barreiro segue por um córrego chamado do Barreiro dividindo com terras de Antônio Piranga (Próximo da Avenida Assembleia, divisa com Diadema) e que foram de Bento de Andrade seguindo a divisa pelo córrego citado até a sua cabeceira desta pelo alto do espigão por uma cerca de arame até o Ribeirão do Cupecê (Córrego do Cordeiro) dividindo com terras de Nicolau Scaff, Emanuel português e continuando a divisa pelo Ribeirão do Cupecê acima até a porteira onde começou a descrição das divisas. A parte que o referido interdireto possui no sítio Cupecê recebeu em partilha a que se procedeu nesse juízo por falecimento de seu pai Jacinto Antônio Mariano Paes em cujos altos foi o mesmo sítio avaliado em sua integridade por 15 contos de réis cabendo não acredito uma parte uma correspondente a um quarto, sendo a venda foi requerida por sua curadora dona Emília Antônia da Conceição Paz, para que elege ao conhecimento de todos e ninguém Alegre e ignorância. O presente edital será fixado no lugar de costume e publicado pela imprensa dado passado nessa cidade de São Paulo aos 12 de janeiro de 1928.

Delimitação da área aconteceu em 1901 e teve como referência o Ribeirão Cupecê (Córrego do Cordeiro)

De acordo com os documentos oficiais do Estado de São Paulo de acordo com o Diário oficial de fevereiro 1901, a delimitação do município de Santo Amaro delimitou toda a área a por consequente a região onde seria a atual Cidade Ademar. Como referência, o Ribeirão Cupecê (Córrego do Cordeiro) que cortava todas as fazendas da região até o Rio Pinheiros, como consta no edital.

A redação do projeto 57 de 1900 da comarca da Câmara dos deputados, a comissão de redação oferece redigido pela seguinte forma: conforme o vencido em última discussão no senado o projeto seguinte o Congresso Legislativo de São Paulo decreta artigo 1, as divisas do município da capital são as seguintes: com o município de santo Amaro pelo alto do espigão que limita pelo lado esquerdo do Rio Ipiranga os vales deste Rio e do Ribeirão do Cupecê,  deste o ponto mais alto do Serrote que fica fronteiro à cabeceira do Rio Ipiranga e hoje termina a linha divisória entre os municípios de São Bernardo (Vila Conceição – Diadema) e Santo Amaro até a cabeceira do galho, mas sempre tem tribunal do Ribeirão da traição passando pela estação do encontro da linha férrea de santo Amaro, que fica pertencendo ao município da capital e por este galho e pelo referido Ribeirão da traição abaixo até a sua voz no Rio dos Pinheiros neste ponto por uma cerca até o ponto mais alto do morro do Jaguaré no espigão que divide as águas dos rios Carapicuíba e Jaguaré qual o município de Cotia por uma reta que usa o ponto mais alto do morro do Jaguaré no espigão que divide as águas dos rios Carapicuíba e Jaguaré onde termina a linha divisória com o município de santo Amaro após do primeiro carro o córrego Cris água no Tietê pela margem direita acima da Barra do Rio Carapicuíba

Loteamentos sem planejamentos condenaram a região à marginalização

A partir de 1935 quando Santo Amaro deixou de ser município e a região agora contava com as possíveis verbas da capital para melhorias locais, a região não foi mais a mesma. Dezenas de sítios foram leiloadas e arrematadas por investidores que não possuíam nenhuma identidade com o local e o pior, lotearam toda a região sem nenhum planejamento e da pior forma possível, pois não eram “terras novas” na concepção dos políticos paulistanos da época, pois pertencia a outra cidade e quando pertencia a Santo Amaro, estava mais próxima do centro da cidade, que era o Largo 13. Ao pertencer a São Paulo a região passou a ser uma das mais periféricas de São Paulo devido a sua distância tanto geograficamente, quanto economicamente.

Um exemplo foi à desconsideração histórica do Bairro do Cupecê, que hoje é uma região bem menor, o Jardim Cupecê ( em tupi significa “língua partida”, ou também, segundo o dicionarista Teodoro Sampaio, co-pecê, “roça dividida”), assim como o Ribeirão Cupecê, que perdeu o status e foi rebaixado a córrego, o então atual “Córrego do Cordeiro”. E a Avenida Cupecê só resistiu ao tempo, por ser um corredor em direção ao litoral, pois a princípio era apenas uma pequena estrada de terra.

Já atual nome Cidade Ademar não ter nenhum contexto histórico.  Há duas teses, a primeira é em homenagem ao político Adhemar de Barros (cujo genro era proprietário de terras adquiridas provavelmente na região), que a nomeou distrito em 1946. Outra corrente informa que a empresa Anchieta fizera ali um loteamento, e o engenheiro responsável pelo trabalho se chamava Ademar. Entretanto, ambas as hipóteses descaracterizam a identidade local, já que nenhum era possivelmente um morador da região.

Nos anos 30, o local era parada obrigatória de quem vinha de São Bernardo para São Paulo de carro de boi. A região se originou como localidade dormitório, com o crescimento populacional decorrente da explosão industrial da década de 1960. Os fazendeiros que possuíam as terras no local foram obrigados a se desfazer de suas terras, e surgiram os loteamentos, vendidos a operários que migravam de diversas partes do Brasil para São Paulo. Na década de 1970, o processo de êxodo rural contribuiu para o aumento da população na região, com novos moradores sendo atraídos pelo parcelamento dos lotes e a possibilidade de possuir sua própria terra.

O êxodo rural ocorrido na década de 70, conhecido como a expulsão do homem do campo para as grandes cidades, contribuiu para o aumento populacionais da região atraídos pelos loteamentos por causa do parcelamento e a possibilidade de possuir um pedaço de terra.

Dois proprietários de terras e fazendeiros fizeram parte da vida da região: João e Nilza donos da região hoje conhecida como Vila Joaniza e Americanópolis. Os Falletes eram donos das terras onde hoje são os bairros da cidade Júlia, Vila Missionária, Jd. Miriam.

Até 1996, Cidade Ademar pertencia à região Administrativa de Santo Amaro e passou a ser independente em 1997 com a criação da Subprefeitura da Cidade Ademar. Isto explica muito bem o porquê da região sofrer de falta de recursos para investimento público em saúde, educação, asfalto, creches, transporte e condições dignas de moradia.

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